Savoring: um bom hábito (antinatural)

Nossa mente é incrivelmente especializada em guardar e repassar coisas ruins e muito menos apta a armazenar ou revisitar coisas boas. A mente é um velcro para o que deu errado e teflon para os bons momentos. Essa metáfora potente é de Rick Hanson no livro Hardwiring happiness, que resumo aqui. Ele nos convida a aceitar o fato de que temos um cérebro que grava em ferro e fogo as coisas que significaram perigo e dor. Fazia todo o sentido para um homem pré-histórico aprender a associar (memorizar) muito bem um cheiro de leão à um leão na área dele. Menos decisivo para sua capacidade de procriação era memorizar e guardar consigo aquele pôr de sol sublime com brisa fresca, comida no fogo e  mulher e filhos felizes por perto. Nosso cérebro evoluiu no sentido de valorizar e memorizar riscos, aflições e os micos que todos já pagamos. Aceitar que os nossos bons momentos são pouco percebidos e armazenados por design de nossa mente é algo que nos permite fazer algo a respeito: aumentar nossa atenção a esses momentos e passando mais tempo saboreando esses momentos. Bastam 10 ou 12 segundos por experiência positiva, coisa que pouca gente faz. São experiências banais como filhos rindo, um abraço de uma pessoa querida, uma pausa para café na hora certa, um brinde, a primeira garfada em uma refeição, um agradecimento sincero, uma gentileza de alguém. Essas coisas vividas com nossa inteira presença, mesmo por poucos segundos, com a repetição dão origem ao ótimo hábito de viver em maior grau e frequência as coisas bacanas. O autor sustenta na linha da neuroplasticidade que no cérebro os circuitos usados com frequência se fortalecem não só em suas ligações mas no número de neurônios recrutados para a tarefa. É uma espécie de malhação mental que muda o cérebro. Do lado da neuroquímica envolvida nisso ou as substâncias que entram em ação quando estamos felizes, sabemos que elas mudam e reequilibram nossa perspectiva. É como entrar em um micro-spa mental com frequência e sair fortalecido dele. Existe uma turma[i] que inspirou o trabalho do Dr. Hanson e que deu nome a essa importante estratégia pessoal: savoring, que significa saborear ou apreciar. Curtir e prestar mais atenção às pequenas coisas faz você progressivamente mais capaz de fazer isso como em qualquer outra tarefa onde repetição leva à incorporação de hábitos. Aumenta a sua resiliência e capacidade de adotar perspectivas mais equilibradas ao longo do dia. Na vida as tristezas parecem vir fortes, no atacado, e as alegrias pulverizadas, no varejo. Acho interessante desenvolver o hábito antinatural de valorizar com mais frequência e presença os pequenos acertos e bons momentos. É  um hábito mental que nos fortalece e traz felicidade.

[i] O Psicólogo Social Fred Bryant é considerado pai do conceito e a Psicóloga Erika Chadwick tem contribuições relevantes no tema…

4 Comments
  • David Bezerra
    Abril 11, 2015

    Mário, excelente post! Maravilhoso ver você voltar a postar com mais frequência. Forte abraço 🙂

    • mario_henrique_martins
      Abril 12, 2015

      Valeu David. Muito obrigado pelo incentivo e não deixe de sugerir temas. Abraço

  • Igor César Silva
    Maio 21, 2015

    Muito bom ler sobre temas que nos trazem algo positivo ou como chegar à este estado de “positivação”. Abs

    • mario_henrique_martins
      Junho 16, 2015

      Obrigado Igor

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