Shark attack 25

Qual é a parcela de nossas vidas que passamos em piloto automático? Segundo estudo recente[i] passamos 47% do tempo[ii] em devaneios, projetando filmes sobre nosso futuro, fantasiosos com certeza e frequentemente deprimentes. Outros filmes também retratam o passado, remakes de coisas que vivemos, refilmando velhos fatos com novos temperos, alguns muito ardidos. Esse fenômeno mental é especialmente notável enquanto estamos executando tarefas que são automáticas como dirigir, caminhar, tomar banho ou fingir que estamos prestando atenção a algo chato. Não há muito que possamos fazer em relação a entrar nesse estado com frequência pois faz parte de nosso software mental. Provavelmente a evolução encontrou vantagens em desenvolver essa característica para por exemplo, exercitar cenários futuros para busca de estratégias. O que é importante saber é que em média não somos mais felizes nesse estado e sabemos que pensamentos geram sua bioquímica própria no corpo e lá se vai cortisol em excesso minando saúde e entusiasmo. O real perigo está no encontro desse estado com estados emocionais extremos como por exemplo muita raiva ou muito medo (em geral associados). Pessoas nessas situações tendem a produzir filmes tipo “Shark attack” onde são devoradas várias vezes e voltam para nadar para alegria dos tubarões imaginários. Em fases desafiadoras da vida tendemos ruminar nossas preocupações produzindo filmes de horror. Como a vida é sempre desafiadora convém exercitar algo essencial: a atenção ao que estamos pensando e sentindo. Com isso podemos identificar o filme no começo e só ver o trailer. Economiza muito sofrimento e saúde. A habilidade de fazer isso é antinatural pois fomos projetados para vasculhar perigos e oportunidades do lado de fora e não de dentro, em nossas mentes. Esses circuitos mentais precisam ser exercitados como qualquer habilidade. Esse exercício tem 25 séculos e há uns 15 anos emplacou no mercado ocidental, fora da Ásia, onde nasceu. Para isso teve que mudar de nome. Dei sobre esse exercício uma palestra recente para um grupo de dirigentes de vários países de uma das maiores grupos de engenharia da Alemanha, o ThyssenKrupp. Lá constatei que o mundo executivo e acadêmico internacional passou a praticar esse exercício mental em larga escala. Google, Boeing, NASA, MIT, Harvard… a lista impressiona. Eles buscam alta performance com redução de stress. Já os orientais buscam autoconhecimento. Interessante essa diferença de objetivos para o mesmo exercício mental… O mais curioso é que essa explosão de interesse e adoção precisou de uma “mudança de marca”. Ninguém fala em meditação, que é o exercício mental que estamos citando. O novo nome oficial e charmoso é Mindfulness. A Google por exemplo tem hoje a mais conhecida academia de Inteligência Emocional do mundo, 100% baseada em meditação, desculpe, Mindfulness. Como meditação está associada a monges, movimento hippie e gente que passa a vida dopada a solução foi recriar o nome. Deu certo. Já ouviu falar em Mindfulness? Tá na moda e é bom para não estrelar um Shark attack 25.

[i] Matthew A. Killingsworth e Daniel T. Gilbert: A wandering mind is an unhappy mind.

[ii] Estimo que o número total, que inclui o tempo onde estamos “atentos” ao que acontece beira 100% em piloto automático por uma questão fartamente estudada por behavioral science: nós tomamos nossas decisões automaticamente e somente em algumas situações chamamos um segundo sistema mais sofisticado para apoiar essas decisões. Leia “Rápido e devagar”de Daniel Kahneman para mais informação.

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