Natal tribalista

Este Natal será diferente em muitas famílias. O fenômeno por trás disso é um conhecido e perigoso bug mental. Por uma série de motivos amplamente conhecidos a eleição presidencial transcorreu em alta temperatura e jogou mais lenha em uma fogueira que seres humanos são especialistas em alimentar: o tribalismo[i], a tendência de se cercar de pessoas semelhantes (nós) e enxergar os que não desfrutam dessas semelhanças como inimigos ou mesmo a expressão do mal. Ontem em mais um vexame tribalista os atletas do Boca Juniors foram atacados com pedradas pela torcida do River e a final foi suspensa. Ninguém morreu, diferentemente das 2.100 pessoas que foram vítimas da guerra futebolística de 1969 entre El Salvador e Honduras[ii]. Meu tema central aqui é a consciência dos erros que cometemos sistematicamente, pois esses fazem parte de nossa natureza imperfeita e merecem muita vigilância. O tribalismo é uma dessas propensões automáticas fortíssimas e se alimenta de diferenças que ao longo da história se repetem em torno de religião, política, futebol, gosto musical, etc.. Temos uma programação interna fortíssima para criar o lema “nós contra eles”. Temos forte capacidade de transformar questões administráveis com a ponderação em lutas de vida e morte. Assim somos. No próximo Natal, vejo três estratégias sendo discutidas por aí. Na primeira, um acordo de não jogar lenha na fogueira, um trato na direção de “vamos falar do que nos une”. Esse pessoal vai tentar superar a tentação de quebrar o pau em torno de diferenças enfatizando e relembrando as muitas coisas que a tribo tem em comum, como a paixão pela comida da avó, por rir de novo da mesma história contada todo ano por um tio engraçado ou por aquele momento onde todos cantam Wish you were here quando rola um violão. Na segunda estratégia, uma faixa de Gaza , dois Natais ocorrerão no mesmo lugar, com grupos separados em tensão vigilante esperando que ninguém atire a primeira pedra. Estratégia arriscada considerando a tradição de consumo de álcool. A terceira estratégia é rachar a família em eventos distintos. Serão “Natais de direita e esquerda” como já se fala. Obviamente em uma visão tribalista… É claro que a primeira via preserva a união e combate o ódio que acompanha a humanidade. Também é claríssimo que cada dinâmica familiar pode permitir ou impedir possibilidades diferentes e o convívio nesse momento pode ser contraindicado e o mais sábio seja dar tempo ao tempo e deixar a poeira baixar. Em qualquer das três rotas convém refletir sobre como é difícil manter uma família unida, como é precioso ter uma família unida e como somos propensos a nos dividir. “Ninguém se tornou de repente a expressão do mal na terra ao dar seu voto”. Quanto mais irritante essa frase for, mais forte é o bug tribalista. Ótimo natal para você. Em qualquer das possibilidades.

[i] Sem entrar na discussão não pacificada das causas do fenômeno ( neurofisiológicas, sociais, compostas) gosto da visão pragmática de Robert Mnookin, autoridade mundial em negociação, em seu clássico “Negociando com o Diabo”. Ele cita que o tribalismo é um viés muito comum que faz que paremos de conversar quando ainda faz muito sentido debater possibilidades.

[ii] Conhecida como a guerra das 100 horas que durou de 14 a 18 de julho de 1969. O futebol não causou a guerra mas foi o estopim para o conflito armado após uma escalada de tensão.

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